Renata Costa
17 de fevereiro de 2020
Categorias Empreendedorismo

Você me representa, menina

Gabriela é o nome dela. Bibi para a família e amigos que tanto a amam e admiram. Essa menina, de apenas 16 anos, me representa, apesar de eu já estar algumas décadas a frente dela.

O texto “desabafo” da Bibi, o qual publico na íntegra logo abaixo, é o reflexo da frustração e ansiedade que a juventude vive nos dias atuais por apenas “achar” que precisa seguir os comandos da sociedade. Sociedade, aliás, que nós mesmos construímos, cheia de regras, metas, exigências que nem sabemos de onde vieram.

Diante de um texto tão profundo, me pergunto: o que é mesmo ser feliz? O que é ter sucesso? O que é viver saudavelmente em família, sem ter como assunto principal o seu desempenho escolar ou profissional? Como é ter amigos onde a conversa não gira em torno “eu consegui isso” ou “eu sou aquilo”? Onde estão os nossos verdadeiros valores? Por que não podemos admirar aqueles que saem da curva, provocando um desvio padrão?

Como empreendedora desde pequena, não entendo porque não “ensinam” iniciativa, coragem, vontade e criatividade nas escolas, sem falar em tantos outros assuntos. Isso sim são habilidades que podem ser estimuladas e que farão toda a diferença na hora de entender e questionar a fórmula da gravidade. Por que não ensinam que nenhum assunto precisa ser decorado, mas raciocinado? Por que não praticam a cooperação como forma de atingir um resultado? Não faz sentido pra mim ainda aprender pronomes oblíquos quando o mundo se comunica, cada vez mais, por meio de emoticons e palavras simplificadas.

A falta de consciência do nosso sistema e o piloto automático das pessoas da nossa sociedade criam seres cada vez mais desesperados por alcançar um futuro que nem eles mesmos querem. Será que não existe outra opção? Será que uma estrada não pode ser percorrida de maneira diferente? Fica aí um pensamento que não quer se calar.

Queria que soubesse, Bibi, que na hora que você for dormir suas 6 horas de sono, saiba que existem pessoas que pensam como você e que a vida é muito mais do que um dez em matemática ou saber os hormônios de uma planta.

Viva, menina, viva intensamente sem se preocupar tanto com o amanhã. E acredite que seus sonhos e desejos são as coisas mais importantes que você pode ter. É por eles que você tem que se esforçar. É para colocá-los em prática que você deve viver. E isso, não passa pela aplicação da fórmula de bhaskara ou pelo calculo da raiz de três, posso te garantir.


PS.: se encontrar algum erro de português, não tem problema. O que vale é a essência do que é dito. Boa sorte.

Queria ter tempo para fazer uma aula de desenho ou de violão e se eu não tivesse aquela aula de laboratório, talvez pudesse aprender uma língua nova. Mas não tenho tempo. São trabalhos, testes, provas, vestibular, ENEM, PAS e dever de casa. Só tenho 16 anos e preciso enfiar na minha cabeça fórmulas e conceitos extremamente complicados. Se você me perguntar qual o hormônio vegetal responsável pelo crescimento da planta, vou saber te responder que é a auxina. Me bota para fazer uma equação química global que eu vou acertar. Além disso, decorei as fórmulas de gravidade e aprendi a resolver equações de segundo grau com potência. Porém não tenho a mínima ideia de como pagar um imposto, sendo que o único contato com o IPTU que eu já tive, foi quando meu pai reclamou que tava muito alto.

Desde criança, ouço falar de faculdades como PUC, UFRJ, UNICAMP, UNB, mas se eu tiver que morar em outro estado para cursar tais instituições, não sei como alugar um apartamento ou pagar contas. Por outro lado, consigo citar o nox de vários elementos tabela periódica e é isso que importa, não é mesmo? Quero cursar comunicação social, tendo uma aula de sociologia por semana, mas cinco de matemática. Já fiquei até tarde decorando coisas para uma prova e desesperada para copiar o dever de casa de matemática dois minutos antes do professor checar quem fez. Isso tudo pra ter meu nome como um dos primeiros colocados no boletim da escola.

Deixei de ir ao cinema com meus amigos ou de almoçar com a minha família para estudar. Já chorei com raiva de mim mesma por ter ido mal em uma prova de física sobre termodinâmica e me senti orgulhosa de ter tirado 10 em uma prova de matemática sem nem mais lembrar das fórmulas que caíram. Já fui para festas e fiquei pensando que deveria estar estudando. Me senti um lixo por ter ido assistir uma série quando não conseguia mais olhar para meu caderno. Se eu tiro nota baixa ou não passo no vestibular de primeira a culpa é minha. Não podia ter viajado com a minha família nas férias. Putz, aquele final de semana em que fui ao cinema, podia ter sido usado para revisar biologia. Aquele dia que eu tive que tirar uma soneca depois do almoço? Desperdício de tempo, porque tinham 50 exercícios de matemática para resolver. Se precisasse, tinha que ter ficado até de madrugada vendo vídeo aula. Deveria ter estudado mais.

“Fulana é vagabunda, não faz nada da vida e quer passar em direito.” “Seus concorrentes estão estudando, enquanto você tá aí dormindo.” “Seu primo passou em primeiro lugar no ITA.” “Neto de sei lá quem tá fazendo medicina na UniCamp.” Parece que o mundo inteiro passou na sua frente. A única coisa que importa é entrar na faculdade. Depressão não existe, já que é coisa de preguiçoso. Distúrbio alimentar é frescura. Ansiedade é besteira. E Deus me livre fazer o curso que ama. Tem que fazer direito para ser deputado. Melhor ainda, vai ser médica porque dá dinheiro. Agora para de reclamar e vai estudar para ser infeliz.

Gabriela Barbeitos

Renata Costa
17 de fevereiro de 2020
Categorias Empreendedorismo